O pedido de socorro pode atravessar a cidade por um fio de telefone. Pode ecoar em uma sala reservada da delegacia ou no espaço acolhedor do Instituto Médico-Legal (IML), durante um exame de corpo de delito. No estado de São Paulo, o atendimento a mulheres e crianças vítimas de violência começa na escuta — muitas vezes ainda na ligação ao 190 — e se desdobra em uma rede especializada das Polícias Militar, Civil e Técnico-Científica. Um trabalho que vai além do protocolo e transforma técnica em cuidado.
“É um trabalho que foge de qualquer procedimento padrão.” A definição é de policiais que atuam nessa rede. Para elas, não se trata apenas de atendimento especializado, mas de uma imersão na vida e na dor daquela pessoa — uma prática constante de empatia, escuta ativa, análise cuidadosa e acolhimento sem julgamento.
Do pedido de ‘pizza’ ao exame que comprova a agressão
O primeiro passo é identificar o tipo de violência que aquela mulher está enfrentando. Na Cabine Lilás, que funciona dentro do Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), a soldado Amanda Caroline Estevan explica que cada ocorrência exige uma leitura atenta da situação.
Quando uma vítima liga para o 190 relatando agressão ou ameaça, a chamada é direcionada às policiais do programa. Essas profissionais treinadas precisam estar sempre em alerta caso a vítima peça uma “pizza”, por exemplo. “Se ele desconfiar que ela está falando com a polícia, o pior pode acontecer. Precisamos agir imediatamente, mas com cautela”, explica a policial.
Nas Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs), o atendimento é, na maioria das vezes, presencial — embora também possa ser feito online. Mas o trabalho vai além do registro do boletim de ocorrência ou do pedido de medida protetiva. Existe uma preocupação com todo o contexto de vida da vítima.