Saúde

Vacina contra o HPV: entenda por que a dose única é eficaz e pode ajudar a eliminar o câncer do colo do útero

Série de estudos robustos mostra que uma dose é tão eficaz quanto três e que essa estratégia é capaz de aumentar cobertura vacinal e prevenir contra diferentes tipos de câncer

23/03/2026 às 12h03 - Atualizado há 4 horas.

Vacina contra o HPV: entenda por que a dose única é eficaz e pode ajudar a eliminar o câncer do colo do útero

Agência SP

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A mudança mais recente na estratégia de vacinação contra o Papilomavírus Humano (HPV) no Brasil é a adoção do esquema de dose única para a faixa etária de 9 a 14 anos. Essa decisão do Ministério da Saúde não foi arbitrária: ela se baseia em um corpo crescente de evidências científicas robustas que mudam o jogo da prevenção.

Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), com apoio da Royal Society e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), publicado recentemente na revista The Lancet, indicou que a vacina contra o HPV reduziu em 58% dos casos de câncer de colo de útero e em 67% as lesões pré-cancerosas (NIC3) no Brasil.

O estudo avaliou dados do Sistema Único de Saúde (SUS), entre 2019 e 2023, de mais de 60 milhões de mulheres a cada ano, com idades entre 20 e 24 anos, para analisar o impacto da vacinação no Brasil. Apesar de a estratégia de dose única ainda não ter sido implementada nesta época, os pesquisadores avaliaram apenas a primeira dose oferecida na pesquisa. 

“A adoção do esquema de dose única da vacina contra o HPV para crianças e adolescentes, principalmente na faixa etária de 9 a 14 anos, no Brasil, é uma decisão estratégica baseada em evidências robustas de eficácia e em objetivos de saúde pública para aumentar a cobertura vacinal e acelerar a eliminação do câncer do colo do útero”, esclarece o pediatra e gestor médico do Butantan Mário Bochembuzio.

A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Panamericana da Saúde (OPAS), inclusive, se estende para pessoas de até 20 anos. Com base nisso, o Brasil, em 2025, passou a oferecer a dose única também para jovens de 15 a 19 anos. O grupo prioritário no país inclui ainda imunossuprimidos, vítimas de violência sexual e pessoas com outras condições específicas, que podem receber a vacina até os 45 anos em um esquema de três doses, conforme disposição do Programa Nacional de Imunizações (PNI).

“O impacto observado no Brasil confirma que a vacinação contra o HPV é eficaz não apenas em países de alta renda, mas também em contextos com recursos limitados. Esse é um passo fundamental rumo à eliminação global do câncer do colo do útero”, destacam os autores do estudo da Fiocruz Bahia, Thiago Cerqueira-Silva, Manoel Barral-Netto e Viviane Sampaio Boaventura.

Estudos mostram que dose única protege contra câncer de colo de útero

Outros estudos realizados em diferentes partes do mundo, como Costa Rica, Índia, Quênia e Tanzânia, demonstraram que uma única dose oferece um nível de proteção contra o câncer de colo do útero semelhante ao de esquemas com duas ou três doses para pessoas sem imunossupressão. 

A estratégia mundial para acelerar a eliminação do câncer do colo do útero, adotada em 2020, estabeleceu como meta que, até 2030, os países atinjam 90% de cobertura da vacinação contra HPV para meninas aos 15 anos de idade.

A imunização das garotas (atingindo alta cobertura, >80%) tem um efeito benéfico secundário ao reduzir o risco de infecção em meninos. É importante notar que a vacina também é recomendada para eles, conforme o calendário de vacinação de cada país.

Para pessoas imunocomprometidas, incluindo aquelas com HIV, o esquema vacinal é diferente, sendo recomendadas três doses, se possível, ou pelo menos duas doses (com intervalo de 6 meses).

Essa simplificação é um divisor de águas: facilita a logística de imunização, aumenta a cobertura e previne contra o câncer de colo do útero — o terceiro câncer mais mortal entre as brasileiras, segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA).

A seguir, estão os principais motivos que embasaram a adoção dessa nova política, conforme as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), e a decisão do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Brasil, abordadas pelo médico Mário Bochembuzio e na publicação “Controvérsias em Imunizações 2024”, publicado pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBiM).

Evidências científicas robustas

O Grupo Consultivo Técnico sobre doenças imunopreveníveis (GTA) da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), em reunião de maio de 2023, reforçou a abordagem simplificada, recomendando que os países garantissem que todas as meninas de 9 a 14 anos recebessem pelo menos uma dose da vacina contra o HPV.

A principal razão para a mudança foi a comprovação de que o esquema reduzido é altamente eficaz para a população sem comprometimento do sistema imune.

Estudos robustos demonstram que o esquema de dose única para pessoas de 9 a 20 anos, sem imunossupressão, fornece proteção contra o câncer do colo do útero semelhante à conferida por duas ou três doses.

Entre essas pesquisas está o CVT Trial na Costa Rica e o estudo da Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer (IARC), na Índia, que demonstraram que a dose única da vacina oferece um nível de proteção comparável ao esquema de três doses na prevenção de infecções por HPV 16/18. Essa proteção se mantém por pelo menos 10 anos após a vacinação.

O estudo KEN SHE (Quênia), por exemplo, mostrou uma eficácia de mais de 97% da dose única contra novas infecções persistentes pelos vírus HPV 16/18 em meninas e mulheres jovens africanas.

“Um ponto que foi levado em consideração para adotar essa estratégia é que a resposta sorológica após a vacinação (incluindo a dose única) é muito mais potente do que a resposta após a infecção natural, proporcionando uma proteção imunológica sólida de longo prazo”, esclarece Mario Bochembuzio.

“A vacina é mais eficaz quando administrada em meninas entre 9 e 14 anos. O objetivo é protegê-las antes que se tornem sexualmente ativas e entrem em contato com o vírus pela via sexual”, afirma o gestor médico do Butantan.

Aumento da cobertura vacinal

Segundo a OMS, a simplificação do esquema é uma estratégia fundamental para melhorar o acesso e a adesão, especialmente em países de média e baixa renda, como o Brasil.

Historicamente, o número de doses tem sido considerado um fator preponderante para a baixa adesão ao esquema vacinal completo. A adoção da dose única como tentativa de eliminar a dificuldade de alcançar coberturas adequadas na segunda dose tem surtido efeito: atingiu 82% de cobertura entre as meninas de 9 e 14 anos e 67% entre meninos da mesma faixa etária, enquanto em 2022 a cobertura foi de 78,42% entre as meninas e de 45,46% entre os meninos da mesma faixa etária, segundo o Ministério da Saúde.

Outro ponto favorável à dose única é que ela resulta em melhor logística e facilitação da introdução da vacina em programas de imunizações, especialmente em países que enfrentam restrições financeiras, falta de disponibilidade da vacina e dificuldades logísticas.

“Os países que adotaram o esquema de dose única têm conseguido registrar aumento nas coberturas vacinais. A simplificação do regime de vacinação permite que os programas cubram maiores proporções das populações adolescentes”, afirma o pediatra.

Aceleração da eliminação do câncer de colo do útero

O esquema simplificado é um catalisador para que o Brasil e outros países alcancem as metas globais de saúde estabelecidas pela OMS até 2030. Uma delas é a estratégia global 90-70-90, que busca eliminar o câncer cervical no mundo atacando em três frentes: 90% de cobertura de vacinação em meninas antes dos 15 anos, 70% de rastreamento em mulheres até 35 anos e 90% de tratamento em mulheres diagnosticadas com a doença. 

A adesão ao esquema de dose única, juntamente com o rastreamento, aceleraria o alcance da meta, com uma redução da incidência de câncer de 69% a 79% nas coortes vacinadas, segundo estudos de modelagem realizados para o Brasil (em parceria com o IARC).

A economia de recursos e a logística simplificada abrem a oportunidade para a inclusão de outros públicos prioritários e a realização de estratégias de resgate (catch up) para adolescentes mais velhos não vacinados (até 19 anos).

Sobre a vacina e o HPV

O HPV (Papilomavírus Humano) é o nome de um grupo de mais de 200 vírus. Os tipos de HPV de alto risco, como o HPV 16 e o HPV 18, são responsáveis por 70% dos casos de câncer do colo do útero em todo o mundo.

“A vacina, além de ser a principal ferramenta para prevenir a infecção por HPV e o câncer do colo do útero, também pode proteger contra outros tipos de câncer relacionados ao HPV, como os de vulva, vagina, ânus, boca, garganta e pênis”, esclarece Mario Bochembuzio.

A urgência de vacinar é sublinhada pelas estatísticas regionais: o câncer é a segunda maior causa de morte entre adultos na região das Américas. A cada ano, 36.797 mulheres na região morrem devido ao câncer do colo do útero.

Segundo o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), pelo menos 15 mil casos de câncer em homens são causados pelo HPV por ano. A vacinação de meninos é, portanto, crucial não apenas para a proteção individual deles, mas também para a saúde coletiva. “Ao vacinar os meninos, reduz-se a circulação geral do vírus na população, protegendo a todos e contribuindo para a imunidade de grupo”, conclui o gestor médico do Butantan.

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